Como construir relações verdadeiras quando ainda estamos procurando quem somos
- Lane Lucena

- há 2 dias
- 9 min de leitura
Atualizado: há 16 horas
Antes de transformar seus relacionamentos, talvez seja preciso reencontrar a mulher que existe por trás dos papéis que aprendeu a sustentar.

Há algum tempo venho percebendo que muitas mulheres chegam até mim acreditando que o maior problema de suas vidas está nos relacionamentos. Algumas falam do casamento, outras das dificuldades com os filhos, da relação com a mãe, do distanciamento dos amigos ou da sensação de nunca conseguirem encontrar alguém que realmente as enxergue. Em comum, quase todas carregam um certo cansaço. O cansaço de tentar fazer os vínculos funcionarem.
Com o passar dos anos, ouvindo histórias na clínica, conduzindo grupos de escrita e acompanhando mulheres em processos de autoconhecimento, comecei a perceber que a pergunta inicial quase sempre está voltada para o outro. "Por que ele age assim?" "Por que minha mãe nunca me compreendeu?" "Por que sempre atraio pessoas parecidas?" "O que eu faço para melhorar esse relacionamento?"
São perguntas legítimas. Elas revelam sofrimento e desejo de mudança. Mas existe uma pergunta anterior que costuma permanecer escondida por muito tempo. Ela aparece apenas quando a poeira começa a baixar, o barulho mental diminui e a pessoa consegue permanecer um pouco mais em silêncio diante de si mesma.
Quem sou eu dentro dos meus relacionamentos?
Essa pergunta parece simples, mas poucas vezes nos permitimos respondê-la com honestidade.
Ao longo da vida aprendemos a ocupar lugares. Somos filhas, irmãs, profissionais, companheiras, mães, cuidadoras. Cada papel traz expectativas e responsabilidades. Aos poucos, começamos a acreditar que somos apenas aquilo que fazemos. Durante muito tempo também pensei que amadurecer significava desempenhar melhor cada uma dessas funções. Hoje compreendo que amadurecer talvez seja o movimento contrário. É retirar, camada por camada, tudo aquilo que foi sendo acrescentado apenas para garantir pertencimento, aprovação ou segurança.
Existe uma diferença importante entre adaptar-se à vida e abandonar a própria verdade. Adaptar-se faz parte da convivência humana. O problema surge quando, para manter o pertencimento, deixamos de reconhecer nossos desejos, nossos valores e nossos próprios limites.
Esse afastamento raramente acontece de forma brusca. Ele se instala nos pequenos "sim" ditos quando desejávamos dizer "não", nas opiniões que deixamos de expressar para evitar conflitos e nas necessidades que adiamos acreditando que será apenas por um tempo. Até que, um dia, já não sabemos dizer onde terminou a escolha e onde começou o costume.
É curioso perceber que grande parte das mulheres consegue identificar rapidamente as necessidades das pessoas que ama. Sabem quando um filho está triste, quando o companheiro está preocupado, quando uma amiga precisa de ajuda. Desenvolvem uma sensibilidade admirável para perceber os movimentos emocionais do outro. Ao mesmo tempo, encontram enorme dificuldade para responder uma pergunta aparentemente simples: como você está?
Não estou falando da resposta automática que usamos todos os dias. Refiro-me à resposta verdadeira. Aquela que exige uma pausa antes de surgir. Aquela que talvez venha acompanhada de lágrimas, de silêncio ou de um longo suspiro.
Tenho a impressão de que vivemos em uma cultura que valoriza muito a eficiência das relações e pouco a autenticidade delas. Aprendemos a manter conversas, resolver problemas, organizar rotinas e administrar conflitos. Mas raramente aprendemos a permanecer presentes dentro daquilo que sentimos.
Quando essa distância aumenta, os relacionamentos passam a funcionar como espelhos distorcidos. Esperamos que o outro confirme nosso valor, reconheça nosso esforço, cure inseguranças antigas ou ofereça respostas para perguntas que pertencem à nossa própria história. E nenhuma relação suporta carregar tamanho peso durante muito tempo.
Acredito que um dos maiores presentes que podemos oferecer às pessoas que amamos seja justamente o compromisso de continuar nos conhecendo. Quanto mais nos aproximamos de nós mesmas, menor é a necessidade de exigir que o outro complete partes que ainda desconhecemos. E esse movimento não acontece de uma vez. Ele exige disposição para olhar com cuidado para a própria história.
Gosto de imaginar a identidade como uma casa construída ao longo dos anos. Algumas paredes foram erguidas por escolhas conscientes. Outras surgiram porque alguém disse que deveriam existir. Em algum momento da vida começamos a caminhar por essa casa com outro olhar. Abrimos portas esquecidas, retiramos móveis que já não fazem sentido e percebemos que alguns espaços finalmente podem ser reorganizados.
A escrita tem sido uma das ferramentas mais importantes que conheço para realizar esse percurso. Quando escrevemos, damos nome ao que antes aparecia apenas como sensação. Organizamos pensamentos, reconhecemos padrões e compreendemos experiências que ainda não haviam encontrado linguagem.
Muitas vezes escuto, ao final de um exercício de escrita: "Eu não sabia que pensava isso." Essa frase revela a potência do processo. Escrever amplia nossa capacidade de compreender a própria história e de perceber versões de nós mesmas que permaneceram esquecidas ao longo do caminho.
Talvez por isso eu acredite tanto na escrita como prática de cuidado. Ela nos ajuda a construir uma relação mais honesta com quem somos e, consequentemente, transforma a maneira como nos relacionamos com os outros. Ao escrever sobre nossos relacionamentos, encontramos diferentes versões de nós mesmas. A menina que buscava aceitação, a adolescente que aprendeu a esconder emoções, a mulher que acredita precisar dar conta de tudo sozinha. Reconhecer essas versões não significa permanecer presa a elas. Significa compreender a história que ajudou a construir quem somos hoje.
Ao acompanhar tantas histórias, percebo que as relações mais saudáveis são construídas por pessoas que conseguem conversar consigo mesmas antes de cobrar respostas do outro. Essa conversa interior modifica a forma como escutamos, como fazemos perguntas, como estabelecemos limites e como oferecemos afeto. Ela modifica até mesmo nossa maneira de permanecer em silêncio.
Ao longo deste texto quero propor exatamente esse caminho: antes de olhar para os relacionamentos como algo que acontece entre duas pessoas, convido você a olhar para o relacionamento que estabelece consigo mesma. Porque existe uma verdade que a vida continua me ensinando: a qualidade dos vínculos que construo acompanha, em grande medida, a qualidade da relação que cultivo com quem sou. E talvez seja justamente aí que comece a experiência de ser, finalmente, de verdade.
O que os meus relacionamentos revelam sobre mim?
Existe uma pergunta que gosto de fazer antes de analisar qualquer relacionamento: como estou vivendo esta experiência?
Essa pequena mudança de perspectiva desloca o foco daquilo que o outro faz para a maneira como eu participo da relação. Em vez de procurar culpados ou justificativas, passo a observar atitudes, emoções, pensamentos e escolhas que fazem parte da minha experiência.
Todo relacionamento mobiliza diferentes dimensões da nossa vida. Ele repercute no corpo, influencia nossos pensamentos, desperta emoções e alcança aquilo que dá sentido à existência. Quando uma dessas áreas permanece fragilizada durante muito tempo, os vínculos acabam refletindo esse desequilíbrio.
Por essa razão, antes de pensar em mudanças concretas, considero importante fazer uma avaliação honesta do momento presente para ampliar a consciência sobre aquilo que já está acontecendo.
A seguir estruturei um Checklist com 40 perguntas. Não responda rapidamente. Se alguma pergunta provocar incômodo, permaneça alguns instantes com ela antes de seguir. Às vezes, o desconforto também faz parte da resposta.
Dimensão Física | Corpo e presença
Tenho respeitado meus limites físicos nas minhas relações?
Consigo descansar sem sentir culpa?
Meu corpo demonstra sinais frequentes de tensão quando estou com determinadas pessoas?
Tenho tempo para cuidar da minha saúde?
Minha alimentação tem refletido cuidado comigo?
Costumo dormir bem ou minhas preocupações invadem o descanso?
Percebo quando meu corpo pede uma pausa?
Tenho energia para viver meus relacionamentos ou apenas sobrevivo às demandas?
Sinto que meu corpo é acolhido nas relações que construo?
Tenho feito escolhas que fortalecem minha vitalidade?
Dimensão Mental | Pensamentos e crenças
Costumo interpretar as atitudes das pessoas antes de perguntar o que realmente aconteceu?
Tenho dificuldade para confiar?
Faço críticas excessivas a mim mesma?
Tenho espaço para expressar minhas opiniões?
Minhas decisões são guiadas pelo medo de desagradar?
Consigo mudar de ideia quando necessário?
Carrego crenças antigas sobre amor que talvez já não façam sentido?
Tenho curiosidade para conhecer o outro ou apenas espero confirmação das minhas expectativas?
Consigo reconhecer quando estou alimentando pensamentos repetitivos?
Tenho cultivado leituras e conversas que ampliam minha forma de enxergar as relações?
Dimensão Emocional | Afetos
Consigo dizer o que sinto?
Peço ajuda quando preciso?
Tenho medo de ser rejeitada quando mostro vulnerabilidade?
Sinto que preciso agradar para ser amada?
Consigo estabelecer limites sem culpa?
Guardo ressentimentos por muito tempo?
Tenho facilidade para pedir perdão?
Tenho facilidade para perdoar?
Consigo celebrar as conquistas das pessoas próximas?
Sinto que posso ser quem realmente sou nas relações mais importantes da minha vida?
Dimensão Espiritual | Sentido
Minhas relações fortalecem quem desejo me tornar?
Tenho vivido de acordo com meus valores?
Reservo momentos de silêncio para me escutar?
Consigo encontrar beleza nas pequenas experiências da convivência?
Tenho gratidão pelas pessoas que caminham comigo?
Meu modo de viver inspira paz ou constante ansiedade?
Tenho alimentado esperança mesmo diante das dificuldades?
As pessoas próximas me aproximam da minha essência?
Tenho feito escolhas coerentes com aquilo que considero importante?
Quando penso nos meus relacionamentos hoje, sinto que estou vivendo uma vida que faz sentido para mim?
Como utilizar este checklist
Não existe uma resposta ideal para essas perguntas. Elas funcionam como um retrato do momento presente. Se desejar, atribua uma nota de 0 a 10 para cada dimensão e observe quais áreas pedem mais atenção. Guarde suas respostas. Revisitá-las daqui a alguns meses pode revelar mudanças importantes na forma como você vive seus relacionamentos.
O caminho para ser de verdade começa quando aceitamos nos encontrar
Depois de responder ao checklist, talvez você tenha percebido que algumas respostas vieram facilmente, enquanto outras exigiram silêncio. Esse exercício não pretende apontar erros ou falhas, mas ampliar a consciência sobre áreas da vida que talvez estejam pedindo cuidado. Algumas mulheres perceberão dificuldades para estabelecer limites. Outras reconhecerão uma necessidade constante de aprovação. Cada descoberta representa apenas um ponto de partida.
Sempre que termino um processo de reflexão como este, gosto de lembrar que autoconhecimento não acontece em um único dia. Também não depende de grandes acontecimentos. Ele é construído por pequenas decisões repetidas ao longo do tempo. Uma conversa que passa a ser mais honesta. Um limite estabelecido com respeito. Um pedido de ajuda. Um tempo reservado para si. Uma página escrita antes de dormir. Uma escolha feita com mais consciência. São esses movimentos discretos que transformam a qualidade dos nossos vínculos.
Tenho aprendido que os relacionamentos amadurecem na mesma velocidade em que amadurecemos internamente. Quando ampliamos nossa capacidade de escutar a nós mesmas, também ampliamos nossa capacidade de escutar quem está ao nosso lado. Quando reconhecemos nossas fragilidades, desenvolvemos mais compreensão diante das fragilidades do outro. Quando deixamos de buscar perfeição, abrimos espaço para relações mais humanas.
Foi exatamente por essa razão que a leitura de Como Eu Era Antes de Ser de Verdade, de Carol Schade, encontrou um lugar especial na curadoria do Leitura Compartilhada.
Este não é um livro que oferece fórmulas mágicas para construir relacionamentos melhores. Ao longo das páginas, acompanhamos uma jornada profundamente humana de uma mulher comum de descobertas, perdas, reconstruções e reencontros. A narrativa conduz o leitor a revisitar partes de si que, muitas vezes, permanecem escondidas sob expectativas, medos e adaptações construídas ao longo da vida.
Enquanto lia, encontrei diversas passagens que me fizeram interromper a leitura para pensar na forma como nos acostumamos a viver versões de nós mesmas que parecem suficientes para o mundo, mas que já não sustentam quem realmente somos. Talvez essa seja uma das maiores contribuições da literatura quando encontra o momento certo da nossa vida.
Poucas leituras me fizeram pensar tanto na distância entre a mulher que aprendemos a ser e a mulher que, continua esperando para existir. Foi essa sensação que encontrei ao ler Como Eu Era Antes de Ser de Verdade.
Foi assim que construí o Leitura Compartilhada, pois sempre acreditei que algumas leituras são capazes de abrir conversas que dificilmente aconteceriam em outro contexto. Quando um grupo se reúne para ler um mesmo livro, cada pessoa leva para o encontro uma história diferente, uma memória diferente e um modo singular de compreender aquela narrativa. É justamente nessa diversidade que surgem novas possibilidades de reflexão. O livro da Carol Schade ocupa esse lugar.
Ele nos convida a pensar sobre identidade, pertencimento, escolhas e relações sem oferecer respostas prontas. Ao terminar a leitura, dificilmente permanecemos exatamente as mesmas pessoas que iniciaram o primeiro capítulo. Algumas perguntas continuam nos acompanhando por muito tempo e, curiosamente, passam a aparecer também na forma como olhamos para nossos relacionamentos.
Se, ao responder ao checklist deste texto, você percebeu que existem áreas da sua vida pedindo mais atenção, talvez esta leitura seja uma boa companhia para esse momento.
Você pode conhecer o livro Como Eu Era Antes de Ser de Verdade acessando este link!
E, se desejar viver essa experiência de forma compartilhada, as inscrições para o Leitura Compartilhada – Ciclo 2026 permanecem abertas.
Toda relação mais verdadeira começa quando encontramos coragem para sustentar um encontro honesto com quem somos. Talvez esse seja o primeiro passo da leitura que começa aqui e continua muito além deste texto.
Lane Lucena é psicanalista, escritora e pesquisadora do campo da Gerontologia. Autora de “Fios da Vida: memórias alinhavadas com palavras”, dedica-se a investigar as tramas entre corpo, memória e escrita como caminhos de cuidado e reconstrução psíquica.
Para continuar essa reflexão
Brené Brown. A coragem de ser imperfeito. Editora Sextante.
Carl Rogers. Tornar-se pessoa. WMF Martins Fontes.
Viktor E. Frankl. Em busca de sentido. Editora Vozes.
Carol Schade. Como Eu Era Antes de Ser de Verdade. Editora Luminar.




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