G-D8LLWBXBP3
top of page

Como escrever suas memórias? Um caminho para começar a contar sua história

Atualizado: há 5 horas

livro aberto

Quando alguém me pergunta como escrever memórias, costumo pensar que a primeira dificuldade está justamente na dimensão da pergunta. Uma vida inteira parece grande demais diante de uma página em branco.


Por onde começo? Pela infância? Pela minha família? Pelos acontecimentos mais importantes? Preciso seguir uma ordem cronológica?


Tenho aprendido, escrevendo minha própria história e acompanhando outras pessoas em processos de escrita autobiográfica, que uma memória pode começar por algo muito pequeno: uma fotografia, um cheiro, uma frase que alguém dizia, uma casa onde moramos, uma música, um objeto guardado durante décadas.


Um fio aparentemente pequeno pode nos levar muito longe.


Começar por uma cena

Quando escrevi Fios da Vida – Memórias Alinhavadas com Palavras, percebi que acessar uma história através de cenas tornava a escrita mais próxima da experiência vivida. Em vez de começar com “vou escrever sobre minha infância”, posso perguntar:


Qual cena da minha infância me visita quando penso naquela época?


Talvez apareça uma cozinha, uma rua, um quintal, uma pessoa, i uniforme da escola, uma viagem ou uma mesa de domingo.


Posso então permanecer algum tempo nessa imagem e perguntar: onde eu estava? Quem estava comigo? Que idade eu tinha? O que consigo ver? Que sons havia? O que aquela criança sentia?


As perguntas ajudam a memória a encontrar caminhos.



A memória trabalha por associações

Ecléa Bosi, em Memória e Sociedade: lembranças de velhos, oferece uma contribuição fundamental para compreendermos a memória como uma experiência viva, atravessada pelas relações, pelo tempo e pelo mundo social. Ao escutar narrativas de pessoas idosas, Bosi evidencia a riqueza presente no ato de recordar e narrar a experiência vivida.


Essa compreensão sempre me interessa porque escrever memórias envolve muito mais do que elaborar uma sequência de acontecimentos. Ao recordar, encontro o passado a partir da pessoa que sou hoje. Por isso, uma fotografia pode despertar uma lembrança que conduz a outra. Uma música pode devolver uma época inteira. O cheiro de uma comida pode fazer surgir uma pessoa que parecia distante da consciência.


Gosto de seguir essas associações.


Criar um caderno de memórias

Para quem deseja começar, sugiro ter um caderno dedicado às lembranças. Ele pode funcionar como um lugar de coleta antes mesmo de existir qualquer intenção de escrever uma narrativa longa.


Eu registraria nele pequenas entradas:

  • casas onde vivi;

  • pessoas que marcaram diferentes fases;

  • objetos que atravessaram minha história;

  • frases que escutava na família;

  • acontecimentos que mudaram algum rumo;

  • músicas ligadas a determinadas épocas;

  • cheiros e sabores que despertam lembranças;

  • despedidas, encontros, mudanças e recomeços.


Cada item pode se transformar posteriormente em uma cena escrita.


Com o tempo, começamos a perceber relações entre acontecimentos que inicialmente pareciam separados.


livro aberto

Como organizar as lembranças

Depois de reunir algumas memórias, gosto de observar a trajetória parecendo quando estendemos fios sobre uma mesa.


Uma Linha da Vida pode ajudar nesse momento. Distribuir acontecimentos ao longo das diferentes fases permite visualizar continuidades, rupturas, repetições, encontros e transformações. A cronologia oferece uma estrutura. A escrita acrescenta significado.


Em meu trabalho com escrita autobiográfica, interessa-me especialmente essa segunda dimensão: o que consigo compreender hoje quando retorno a determinada experiência?


É nesse encontro entre lembrança e interpretação que a escrita pode adquirir profundidade.


Escrever também é escolher

Toda narrativa autobiográfica envolve escolhas. Philippe Lejeune, referência importante nos estudos autobiográficos, desenvolveu o conceito de pacto autobiográfico para pensar a relação estabelecida quando autor, narrador e personagem remetem à mesma pessoa e o texto se apresenta ao leitor como narrativa de uma vida real.


Quando escrevo sobre mim, escolho cenas, palavras, perspectivas e acontecimentos. Minha história contém muitas histórias possíveis.


Essa consciência também pode aliviar a expectativa de contar “tudo”. Posso começar contando uma coisa, depois outra, e observar os fios que surgem entre elas.


Uma pergunta para começar hoje

Se você deseja escrever suas memórias, experimente abrir uma página e completar:


Quando penso na minha história, uma das primeiras cenas que me vem à memória é...


Escreva durante alguns minutos seguindo aquilo que aparecer. Acrescente detalhes. Observe o ambiente. Lembre das pessoas. Deixe uma lembrança chamar outra.


Foi dessa maneira, puxando fios e percorrendo diferentes fases da existência, que nasceu Fios da Vida – Memórias Alinhavadas com Palavras. O livro convida cada leitor a revisitar sua trajetória por meio da memória e da escrita autobiográfica, encontrando palavras para experiências que ajudaram a constituir quem somos.


Às vezes, começamos querendo registrar uma lembrança e encontramos, dentro dela, uma parte de nossa própria história esperando para ser contada.




Lane Lucena é psicanalista, escritora e pesquisadora do campo da Gerontologia. Autora de “Fios da Vida: memórias alinhavadas com palavras”, dedica-se a investigar as tramas entre corpo, memória e escrita como caminhos de cuidado e reconstrução psíquica.



Referências

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. Organização de Jovita Maria Gerheim Noronha. Tradução de Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria Inês Coimbra Guedes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page