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O que é memória autobiográfica e por que ela participa da construção de quem somos?

livro aberto

Quando penso em memória autobiográfica, penso nas lembranças que carregamos da nossa própria vida: uma casa onde moramos, uma conversa que permaneceu conosco, uma pessoa importante, uma mudança, uma perda, uma viagem, um cheiro capaz de nos transportar para uma cena vivida muitos anos atrás.


A memória autobiográfica reúne acontecimentos e experiências relacionados à nossa história de vida. Ela envolve aquilo que recordamos sobre o que vivemos e também a maneira como essas experiências vão adquirindo significado ao longo do tempo.


Pesquisadores brasileiros como Gustavo Gauer e William Barbosa Gomes estudam a recordação de eventos pessoais e mostram que, quando lembramos acontecimentos autobiográficos, também atribuímos importância e significado a eles. A lembrança de uma experiência envolve, portanto, mais do que recuperar uma informação armazenada. Isso me interessa especialmente porque ajuda a compreender algo que encontro muitas vezes na escrita autobiográfica: recordamos a partir de quem somos hoje.


A memória autobiográfica participa da nossa identidade

Posso me lembrar de um acontecimento vivido aos dez anos, aos vinte, aos quarenta ou aos sessenta. O acontecimento pertence ao passado; meu olhar sobre ele continua atravessando o tempo.


Algumas experiências que pareciam pequenas ganham importância quando revisitadas. Outras mudam de significado. Há ainda aquelas que parecem formar pontos de referência da nossa trajetória: “foi depois disso que mudei”, “ali começou uma nova fase”, “naquele momento tomei uma decisão que alterou minha vida”. É nesse movimento que memória, narrativa e identidade começam a se aproximar.


Ao estudarem a construção narrativa da identidade, André Guirland Vieira e Margarida Rangel Henriques apresentam a história de vida como uma forma de produzir unidade e propósito, articulando passado, presente e futuro.


Gosto de pensar que nossa identidade também se constrói nesse trabalho permanente de reunir acontecimentos dispersos e encontrar relações entre eles.



Lembrar também é atribuir sentido

Quando comecei a escrever Fios da Vida – Memórias Alinhavadas com Palavras, percebi com ainda mais clareza que uma vida inteira jamais chega ao papel de uma só vez. Ela chega em fragmentos.


Uma fotografia, uma frase ouvida na infância, uma comida preparada por alguém da família, uma música, uma casa, um medo antigo, uma escolha, um encontro. Cada lembrança parece puxar outra, como se existissem fios subterrâneos ligando diferentes momentos da nossa trajetória. Esse movimento também explica por que duas pessoas que participaram do mesmo acontecimento podem narrá-lo de maneiras tão diferentes. Cada uma ocupa um lugar naquela história e constrói sentidos a partir de sua própria experiência.


A memória autobiográfica possui essa dimensão profundamente pessoal e, ao mesmo tempo, relacional. Nossa história é atravessada pelas pessoas com quem vivemos, pela família, pela cultura, pelo tempo histórico e pelas narrativas que ouvimos sobre nós mesmos.


Estudos brasileiros sobre memória e narrativa autobiográfica também apontam essa articulação entre o vivido, o presente de quem recorda e a construção da identidade.


O que acontece quando escrevemos uma lembrança?

É aqui que memória autobiográfica e escrita autobiográfica se encontram de uma maneira que considero especialmente fértil.



escrita

Quando escrevo uma lembrança, preciso escolher palavras, organizar uma sequência, perceber detalhes, estabelecer relações. Algo que existia como imagem, sensação ou fragmento começa a adquirir forma narrativa.


Às vezes, começo escrevendo sobre uma cena e termino compreendendo algo sobre mim. Essa experiência está no centro da proposta de Fios da Vida. Ao percorrer diferentes momentos da história de vida, a escrita cria uma oportunidade de observar continuidades, rupturas, escolhas, relações e transformações.


Talvez uma pergunta importante diante de uma lembrança seja: por que me lembro justamente disso?


E depois outra: que sentido essa experiência tem para quem sou hoje?


São perguntas simples, capazes de abrir caminhos inesperados. Recordar também pode ser uma maneira de reconhecer os fios que atravessaram nossa história e perceber como, ao longo dos anos, fomos alinhavando aquilo que hoje chamamos de eu.


Memória autobiográfica e identidade


Se nossas lembranças mudam, desaparecem, reaparecem e recebem novos significados, qual é a relação entre memória e identidade?


Uma das funções da memória autobiográfica é justamente produzir alguma continuidade entre diferentes versões de nós mesmas. A criança que fomos, a adolescente, a jovem adulta e a mulher de hoje possuem diferenças imensas. Nosso corpo mudou. Nossos vínculos mudaram. Nossas crenças, escolhas e maneiras de interpretar o mundo também podem ter mudado. Ainda assim, dizemos: essa história é minha. A memória participa dessa costura.


Ao recordar determinados acontecimentos, construímos relações entre diferentes momentos. Criamos explicações. Reconhecemos permanências. Percebemos rupturas. Identificamos escolhas que abriram caminhos e experiências que modificaram nossa maneira de estar no mundo. É nesse sentido que memória autobiográfica e identidade se aproximam. Nós nos contamos para nós mesmas. E essa narrativa nunca está completamente terminada.


O passado também é interpretado pelo presente

Existe algo particularmente interessante quando revisitamos uma experiência depois de muitos anos: podemos encontrar nela algo que antes não conseguíamos perceber. Uma escolha feita aos vinte anos pode adquirir outro significado aos cinquenta. Uma relação que parecia central pode ocupar um lugar diferente. Uma experiência considerada fracasso pode revelar ter produzido uma mudança decisiva. Também podemos perceber que algumas histórias que repetimos sobre nós mesmas foram construídas a partir de interpretações antigas.




Lane Lucena é psicanalista, escritora e pesquisadora do campo da Gerontologia. Autora de “Fios da Vida: memórias alinhavadas com palavras”, dedica-se a investigar as tramas entre corpo, memória e escrita como caminhos de cuidado e reconstrução psíquica.



Referências

GAUER, Gustavo; GOMES, William Barbosa. Recordação de eventos pessoais: memória autobiográfica, consciência e julgamento. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 24, n. 4, p. 507–514, 2008.

GALL, Monique Heinen; PIRES, Emmy Uehara. Memória autobiográfica da infância em universitários da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Estudos Interdisciplinares em Psicologia, v. 9, n. 3, 2018.

PASSEGGI, Maria da Conceição et al. Memória, narrativa e identidade profissional: analisando memoriais docentes. Cadernos CEDES. Trabalho sobre memória, narrativa autobiográfica e constituição identitária.

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