O que é escrita autobiográfica? O poder de escrever a própria história
- Lane Lucena

- 21 de set. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 8 de ago.

Escrever sempre fez parte da minha vida. Quando volto às lembranças da infância, encontro uma menina que criava histórias, inventava personagens e desenhava cenas em folhas de papel. Naquela época, eu apenas escrevia. Muitos anos depois, já psicanalista e escritora, comecei a compreender o lugar que a escrita ocupava na minha própria história e a me interessar pelo que acontece quando alguém se dispõe a colocar em palavras aquilo que viveu.
Foi por esse caminho que me aproximei da escrita autobiográfica.
Escrever autobiograficamente é tomar a própria experiência como matéria. Podemos partir de uma lembrança da infância, de uma fotografia antiga, de uma pessoa, de uma casa onde vivemos, de uma perda, de uma escolha, de um cheiro que inesperadamente nos devolve uma cena inteira. Sempre me impressionou essa capacidade que a memória possui de puxar seus próprios fios. Um cheiro traz uma cozinha. A cozinha traz uma pessoa. A pessoa nos leva a uma época. Quando percebemos, estamos diante de uma parte de nossa história que permanecia guardada e encontrou uma passagem para voltar.
A memória autobiográfica tem justamente essa particularidade. Lembramos a partir de quem somos hoje. Uma experiência vivida aos dez anos pode adquirir um sentido aos trinta e outro aos cinquenta. O acontecimento pertence ao passado; a maneira como o compreendemos continua se movimentando conosco. Por isso, quando escrevemos nossas memórias, fazemos algo além de registrar fatos. Começamos a observar como construímos a narrativa da nossa própria vida.

Essa diferença entre o acontecimento e o sentido que atribuímos a ele se tornou central nos meus estudos. Há o tempo cronológico, que nos permite perguntar quando algo aconteceu, e há o tempo psíquico, que nos leva a outra pergunta: o que aquilo passou a representar em minha história?
É também aí que encontro a potência da Linha da Vida, recurso que utilizo há muitos anos em minha prática e ao qual venho me dedicando de maneira cada vez mais aprofundada. Quando colocamos diante dos olhos acontecimentos de diferentes fases da vida, começamos a perceber relações que isoladamente poderiam passar despercebidas. Surgem continuidades, rupturas, escolhas, repetições, encontros e mudanças de direção. A história começa a ganhar perspectiva.
A escrita pode produzir um movimento semelhante. Há coisas que pensamos inúmeras vezes e que se apresentam de outra maneira quando precisamos encontrar palavras para elas. Escrever cria certa distância entre quem viveu e quem hoje olha para aquilo que viveu. E, nesse espaço, podem nascer perguntas novas.
Talvez seja por isso que gosto tanto de começar uma experiência de escrita autobiográfica com algo muito simples: “Eu me lembro...”
Sem a preocupação de contar uma vida inteira. Uma cena basta.
Onde você estava? Quem estava ali? Que idade tinha? Havia algum cheiro, som ou textura? O que aquela pessoa que você era sentia naquele momento? E, sobretudo, o que você consegue compreender hoje que ainda não conseguia compreender naquela época?
A primeira versão deste artigo foi publicada em 2023. Naquele período, eu desenvolvia um trabalho chamado Escr-evoluir e já investigava as relações entre escrita, memória e autoconhecimento. Continuei estudando, escrevendo e acompanhando histórias. As perguntas daquele tempo também amadureceram comigo.
Em 2025, uma parte importante desse percurso ganhou forma em Fios da Vida – Memórias Alinhavadas com Palavras.
O título guarda algo profundamente ligado à minha própria história. Sou filha de uma costureira e cresci entre tecidos, linhas, agulhas e retalhos. Talvez por isso tenha encontrado na costura uma imagem tão familiar para pensar a vida. Há fios que atravessam nossa história desde muito cedo. Outros desaparecem por algum tempo e reaparecem muitos anos depois. Há fios herdados, interrompidos, retomados, entrelaçados às histórias de outras pessoas.
No Fios da Vida, convido o leitor a se aproximar desses fios através da escrita, percorrendo memórias, sentidos, fases da vida e construindo também sua Linha da Vida.
Hoje compreendo a escrita autobiográfica menos como uma tentativa de produzir uma versão definitiva sobre quem fomos e mais como uma possibilidade de nos aproximarmos daquilo que vivemos com outros olhos.
A vida continua produzindo sentidos depois que os acontecimentos terminam.
E talvez escrever seja uma das maneiras de encontrá-los.
Lane Lucena é escritora, psicanalista e estudante de Gerontologia. Dedica-se aos estudos da escrita autobiográfica, memória, narrativa e histórias de vida. É autora de Fios da Vida – Memórias Alinhavadas com Palavras e O Poder do Permita-se – Uma Travessia de Autoconhecimento pela Escrita.




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